terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Coração Partido

Não, não é inédito. É deja-vu. Plágio. Repetição. Não, não é recente. É receio. É medo. Pois, já vi o final. Acaba em um dia cinza com vento. E lágrimas no rosto de alguém. É bis, eu sei. É bizarro. Sempre o mesmo cenário. A mesma mocinha. Só um novo vilão...

...que se parece com todos os outros, aliás.

20 comentários:

Fernanda disse...

mocinho que no fim acaba se tornando vilão...acontece com todos=)
amooo seus textos...

Mulher na Polícia disse...

Como você joga com as palavras!
É um texto bem musical.
Gostei!

. disse...

O amor é uma espera inalcançável, onde o fim sempre são os meios, e não se pode alcançar o fim por medo, receio, assim como disse em seu texto.

Porém, pobre de nós seres humanos - ainda nós, os poetas que não sabem viver sem amar. Mesmo que doa.

Adorei as suas palavras.
Tenha um bom dia!

Beijos!

Jana disse...

Vc quem escreve os textos... poesias? Lindooos!!! Parabéns e muito obrigada pela visita!!!

Mais um imundo no mundo impuro. disse...

E por mais que saibamos como é o final insistimos em arriscar, essa fé quase utópica que carregamos no coração que faz as coisas impossíveis tornarem-se possíveis.

Adorei o texto, magnifico!

Abraços!

Erica Ferro disse...

Ah! Sei o que é isso... ah, se sei!

É aquele vilão com cara de mocinho/príncipe, né? Hum...

Beijo.

Natália Corrêa disse...

eu gosto de acreditar que uma hora a mocinha vai encontrar seu mocinho, e o final vai ser feliz.

Anthony Dostoiévski disse...

É sempre assim...
um dia a pele do cordeiro rasga e o lobo aparece...

bom texto moça
bjim

Tatiane Trajano disse...

Eu conheço bem essa história, mas estou literalmente cansada desse final. =/

E como sempre, vc brincando lindamente com as palavras.

marinaCavalcante disse...

Ih, parece que já vivi nessa trama. =]

Muito legal!

Desculpe-me a demora...
abraço grande e te espero em
meus comentários, Erica!

@vitinhobinho disse...

Enfim, seu texto é direto. assim como sentimento que descreve.

Ananda Urias disse...

Tá na hora de encontrar o principe da história, chega de vilões para nós.

Ah, melhoras para os seus pés.. hahaha
beijos

Gisa disse...

Que nada boba, o cenário é o mesmo mas a atriz vai saber inovar... rs

Amei !

Natacia Araújo disse...

Reprises são tão fundamentais quanto contos inéditos seja na vida ou nessas outras situações...
Adorei!

disse...

Ah, adorei. É tão o que todo-mundo-passa não importa a idade, o sexo e sei lá o que.

HAHA e no final esses vilões são todos iguais, né? E as mocinhas, saem feridas, mas sobrevivem. Acho que o problema está em sobreviver. hun

Mikaele Tavares disse...

Talvez nunca tenha acabado...

Beijos

ana wants revenge disse...

pense no lado bom, quem ama vive no maximo grau. :)

beijos
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ErikaH Azzevedo disse...

...é que não adianta coração é mesmo coisa de quebrar, mas não se preocupe têm sempre ele um poder sobenatural pra rejenerar

Sabe o que é , é que no fundo , no fundo, coração foi mesmo feito pra se entregar.

Deixo-te um texto que eu considero perfeito...

Espero que gostes.

Bjinhos

Erikah

ErikaH Azzevedo disse...

Passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

(...)

ErikaH Azzevedo disse...

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pos. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.


Caio Fernando Abreu, in Pequenas Epifânias

Pois é Xará, pq assim que é o coração dos que preferem viver assim..de taquicardias.

Montedebeijos


Erika